Acervo Vladimir Herzog
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  • > Promovido ao cargo de Editor de Cultura na revista Visão

    Poucas publicações na história do jornalismo, brasileiro e mundial, conseguiram um feito: reunir uma equipe brilhante, em condições de trabalho excepcionais, sob o comando de um Publisher que acreditava na liberdade de imprensa e deixava seu time jogar. Tudo isso, em um momento dos mais críticos da vida brasileira. O nome é Visão. Seu editor de Cultura, Vladimir Herzog.

    Contemporânea da Revista Realidade – a nossa Life – e precursora da Veja (essa inspirada na também americana Time), Visão chega ao Brasil pelas mãos de um grupo internacional que, em 1965, vende o título para o publicitário Said Farhat. Em poucos anos, esse imigrante libanês resgata algumas das melhores figuras do jornalismo e constitui um pequeno, porém sólido, feudo do melhor da comunicação brasileira.

    Vendida em 1975, Visão teve sucesso indiscutível. Em dez anos sob a gestão de Farhat, a editora já empregava 250 funcionários (eram apenas quarenta, no início), com cinco títulos relevantes e um faturamento que saltou de 2 para 40 milhões de cruzeiros anuais, com mais de cem páginas por edição, fartamente anunciadas com o melhor da indústria nacional.

    O nome Vladimir Herzog surge pela primeira vez nas páginas de Visão, em 1965, como colaborador. Esse termo era utilizado para designar freelancers que contribuíam para a revista sem presença fixa na redação. Durante todo o período em que residiu em Londres, Vlado se manteve presente no expediente da revista, para a qual enviava matérias sobre a vida cultural europeia, com foco especial no cinema.

    Aqui surge o primeiro problema para a pesquisa da obra de Herzog. Não era uma tradição, naquele momento, que um jornalista assinasse suas matérias, por vários motivos. Seja porque as publicações, de olho nos modelos americanos, buscavam uma produção menos autoral e mais uniforme (de modo que o leitor não percebesse a mudança de mãos no texto), seja porque se necessitasse manter certo anonimato providencial nos textos, em tempos de censura.

    Assim, dos primeiros cinco anos de contribuição de Vlado, procurou-se cruzar as matérias com correspondências dos arquivos pessoais de Herzog, depoimentos de colegas e livros publicados, a fim de identificar as digitais do autor. Aos poucos, apreendeu-se um tipo de texto característico dele, que sempre fundamentava a informação em dados sólidos, mas sem perder de vista o esmero no trato da linguagem.

    A partir de 1970, Herzog muda de categoria, integrando o corpo de redatores da Visão e, em 1971, o quadro de editores. A partir daí, sua presença se dá em todo o material da revista, seja produzindo as matérias publicadas desde o início, seja unindo textos que chegavam de correspondentes nacionais e internacionais, ou até selecionando artigos de publicações estrangeiras para tradução e reprodução.

    O ufanismo de uma cobertura ainda em tom de Bossa Nova dá lugar a um jornalismo crítico, com momentos inesquecíveis. Em constante parceria com Zuenir Ventura, chefe da Sucursal carioca, surgem matérias ‘ponte-aérea’, com informações ligando as capitais para além do bairrismo, na busca de um jornalismo cultural efetivamente nacional.

    Grandes levantamentos de tendências, priorizando a voz das fontes, revelaram entre outros fenômenos o chamado “Vazio Cultural”, constatação da alta intelectualidade ouvida pela Visão em uma edição antológica (“A crise da cultura brasileira”, 5 de julho de 1971), diante da mão opressora da Ditadura sobre a produção dos artistas da época. Ao lado de outras duas edições memoráveis – uma sobre a “independência cultural” simbolizada na Semana de 22 (“A luta pela independência cultural. 1922 – O primeiro gesto”, 28 de fevereiro de 1972) e outra com um balanço de dez anos de regime militar e cultura (“Da ilusão do poder a uma nova esperança”, 11 de março de 1974) –, forma talvez a mais importante trilogia da história do jornalismo cultural impresso brasileiro.

    Ao contrário do que ocorre no jornalismo do século XXI, a educação fazia parte da temática cultural (bom lembrar que educação e cultura estavam sob a mesma pasta federal, o MEC). Desse modo, o relato do momento nacional nessa área também ficou sob a responsabilidade de Vlado. Jamais o jornalismo contou com um material tão rico: tinha na alça de mira programas como o Mobral, o avanço do ensino particular e o enquadramento autoritário do sistema educacional, sob a batuta de Jarbas Passarinho.

    Como se não bastasse, essa década também consolidou a televisão como o grande veículo de comunicação e difusão cultural nacional. Visão liga o aparelho e acompanha tudo, da implantação do videoteipe, da chegada da cor, até as experiências de teleducação e os primeiros experimentos de TV paga.

    Por tudo isso, a pesquisa transcendeu o jornalismo cultural, para situar futuros leitores no momento histórico da publicação de cada matéria. Percorremos as matérias de capa, os editoriais (sempre assinados por Farhat, com a opinião oficial da revista), os destaques e todas as matérias e notas da área cultural. Cada edição possui um fichamento – pequenos retratos do Brasil da época.

    Herzog, que assinou apenas uma matéria em dez anos de Visão, teve sua presença detectada em mais de 160 passagens e cerca de 520 páginas de revista. Esse esforço consumiu em torno de duas centenas de horas de pesquisa em acervos nos quais a revista é considerada publicação rara e, por isso mesmo, acessível apenas para consultas agendadas e feitas in loco.

    Agora digitalizadas e disponíveis para todo o público, essas matérias se juntam a editoriais, capas e outros textos memoráveis, como a cobertura de Miguel Urbano Rodrigues sobre a Revolução dos Cravos, em Portugal. O resultado é a possibilidade de se conhecer melhor um dos maiores jornalistas de cultura da história, tornando-se a pesquisa agora pública, viva e aberta.

    Segue aqui, para os menos habituados ao jargão profissional jornalístico, um pequeno glossário que facilita o entendimento das fichas apresentadas no site:

    Lead: parágrafo que introduz uma matéria. No modelo jornalístico americano, o lead responde às perguntas: “Quem? Quando? Como? Onde? Por quê?”. É uma espécie de isca para fisgar o leitor desde a primeira linha.

    Nariz de cera: utilizado no modelo europeu, texto que, antes de entrar no assunto, contextualiza a informação e, por isso, recebeu esse apelido. Na Visão, Vlado e equipe usam com muita frequência esse recurso.

    Retranca: palavra de vários significados, neste caso designa assuntos ou pequenas notas com um título curto, normalmente posicionadas entre os textos das páginas de registros da Visão, ou mesmo matérias que começavam do meio para o final de uma página interna.

    Linha-fina: pequeno texto que precede o título, trata-se de um elemento de acabamento que completa o sentido dos títulos. Visão fazia esses textos crescerem, chegando a ocupar um parágrafo, resumindo a matéria, de forma quase redundante em relação ao lead.


    Agora, armado com o arsenal correto, descubra o legado de Vladimir Herzog no mais profundo trabalho jornalístico de sua carreira.



    Artigo: "A Visão de Vladimir Herzog", por Ronald Sclavi

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